Considerações sobre o voto

Uma semana se passou do pleito que definiu os prefeitos dos 5.564 municípios brasileiros. É hora de fazer um modesto balanço, não apenas dessas eleições, mas, de todo o processo eleitoral. E duas coisas me chamaram a atenção este ano, pontos que reforçam a necessidade de uma reforma eleitoral no Brasil:

1) Mais uma vez o índice de abstenção foi grande no país. No primeiro turno, o índice de abstenção foi de quase 15%. Isso significa que mais de 18 milhões de eleitores não compareceram as urnas. Já no segundo turno esse índice subiu para mais de 18%. Será que o brasileiro realmente quer votar por obrigação? Parece que não. Esse número de ausentes, pode até ser considerado normal, afinal temos que contar os eleitores em trânsito, impossibilitados por motivos de saúde, entre outros. Mas, é comum ver o brasileiro questionando o “direito” de votar, que na verdade é mais um “dever” do cidadão. Nas seis capitais com mais de um milhão de eleitores que houve segundo turno, houve alto número de ausentes.
Vivemos em um sistema dito “democrático”, nele a população expressa sua opinião, sua vontade.  Será que ninguém vai perceber que esse número significa uma vontade do eleitor? Não seria hora do Estado começar a fazer uma análise dos pleitos realizados desde o retorno do voto direto? São questões que precisam ser discutidas para buscar o aprimoramento do processo eleitoral, como tanto se diz.

2) Outra coisa que muito me incomoda é a realização do segundo turno. Para entender, caso nenhum candidato consiga no primeiro turno 50% mais um voto, é realizado um novo pleito reunindo os dois candidatos mais votados. Entretanto, essa eleição tem perdido crédito. Nela o dinheiro tem sido mais decisivo que as idéias e propostas do candidato. Normalmente, a eleição é polarizada pela defesa ou ataque a alguma instituição (seja o Governo Federal, Estadual ou Municipal). É quando a máquina pública entra de vez na briga e quem perde com isso é o eleitor.
Não dá para deixar de citar o estado de Minas Gerais como um exemplo disso que citei acima. Querendo mostrar força para o restante do país, e principalmente para o PSDB nacional, Aécio entrou com tudo nas eleições. Em Juiz de Fora e Belo Horizonte, vendo seus candidatos sofrendo pressão, ele o futuro candidato à uma candidatura a presidência colocou a máquina estadual em campo e atropelou na reta final. Mas, será que as cidades ganharão com isso? É esperar para ver.

Eu não acho que o segundo turno represente a vontade do eleitor. Transformar a eleição em um pleito único poderia corrigir esse erro, além disso, tantas votações em tão pouco tempo cansa a população, sem dúvida alguma. Quem sabe mudar o calendário eleitoral não fizesse bem a esse processo democrático. Talvez duas eleições no mesmo ano, uma em agosto, outra em outubro, com limitação de tempo de propaganda, uns vinte dias, por exemplo, e em turno único. É muito provável que o eleitor ficasse até mais animado em sair de casa para exercer seu “direito”.

Clique aqui e confira os resultados das Eleições 2008 em todas as cidades

Clicando link você pode conferir as estatísticas desses resultados

Anúncios

2 comentários sobre “Considerações sobre o voto

  1. Wallace,
    só para esclarecer, não defendo o fim do voto obrigatório, na verdade, nem tenho opinião formada sobre isso. Em alguns momentos tendo para um lado, e em outros, para o lado oposto. Só acredito que haja necessidade de uma ampla discussão da sociedade sobre o tema. Uma espécie de balanço democrático.
    Sobre os partidos, é outro ponto que precisa de revisão. O nosso sistema acaba reduzindo sua importância, o que favorece o personalismo das eleições e o alto gasto dos pleitos.

    Valeu pela visita, volte sempre!
    Abraço!

  2. Caro Bruno,

    Acho interessante e fundamental iniciativas como a sua de colocar um blog no ar com temas tão instigantes e que devem ser debatidos. Sem dúvidas, trata-se de mais um importante espaço para confronto de idéias e ampliação de mentes. Então, vamos lá:
    Em primeiro lugar, pode parecer polêmico, mas concordo e sou severo defensor do voto obrigatório. A decisão de votar não deve ser comparada à liberdade que se tem em tirar uma carteira de motorista. O seu voto, Bruno, é importante para mim tanto quanto para você mesmo. A questão que acho que deve ser debatida é de consciência eleitoral. Só para citar um exemplo, historicamente, nos EUA, os maiores índices de abstenções concentram-se entre os eleitores negros e demais segmentos mais periféricos. Tendo isso em vista, a preocupação dos candidatos com tais eleitores reduz-se a cada eleição – as abstenções chegam a 50% do eleitorado total. Notavelmente, o antro do liberalismo é conhecido pela sua enorme desigualdade e poucas e parcas políticas públicas no âmbito social. Afinal de contas, tais segmentos alijados da política pensam: “Por que votarei se a política não chega a mim?”
    Além disso, é cada vez maior o número de países que adotaram o voto obrigatório. Três recentes exemplos de sucesso nos últimos cinco ou dez anos são Costa Rica, Austrália e o Estado italiano, mostrando que a perspectiva atingiu mesmo a Europa.
    Quanto às eleições em si, não até que ponto os meios de comunicação têm sido tão decisivos assim – com certeza o poder econômico é forte, porém, nem tão ehegemônico quanto se pensa. Apesar da vitória do PSDB em Juiz de Fora e “Belo Horizonte” ele reduziu no cenário nacional em quantidades de eleitores e cidades estratégicas. O DEM quase caiu pela metade e a vitória em SP se deu simplesmente pelo poderoso dedo de José Serra (PSDB). O que talvez possamos e devemos chamar a atenção é para o enfraquecimento do partido enquanto legenda, haja vista que não tem se reconhecido enquanto oposição apresentando a histórica dicotomia esquerda-direita (PT e PSDB, respectivamente), presente na Nova República. Acredito, sim, que a direita brasileira está em crise de legitimação devido ao sucesso popular do governo Lula entre outros fatores. Não obstante, ao contrário do que possam imaginar alguns esquerdistas, isso é ruim uma vez que pode interferir diretamente na identidade do PT enquanto uma instituição partidária por não ter uma oposição que aponte seus “erros” e “acertos”.
    Defendo que a política deve ser feita de partidos conservadores e progressistas e percebemos somente os últimos na eleição passada quando ninguém se atreveu a bater de frente com o governo federal.
    Porém, acredito ainda que a população não é simplória e consegue distinguir os fatos com alguma dificuldade – mas consegue. Vide o que citei acima, do encolhimento do direita nos municípios como um todo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s