A beleza do carrinho

Esse texto foi enviado pelo blogueiro Fernando Benini e é de autoria do jornalista italiano Alessandro Penna, colaborador das revistas italianas “Guerín Sportivo” (sobre futebol) e “Panorama”. Vale a pena ler, porque fala de um lado certamente marginalizado do futebol brasileiro, a defesa. Vale a pena ler, até pelo lado profético do artigo, já que ele foi escrito um pouco antes da Copa do Mundo de 2006:

O Brasil é um lugar maravilhoso. Com essa frase astuta que acabei de soltar, surge um artifício retórico que os latinos chamavam “captatio benevolentiae”, que serve para flagrar a indulgência preventiva de vocês. Porque, nas linhas que se seguem, escreverei coisas desagradáveis. Dizia: o Brasil é um grande lugar, e vivê-lo à italiana apresenta infinitas vantagens. Entre estas, porém, não está a de poder conversar serenamente sobre futebol. Quando o discurso recai sobre a “bola que rola”, começam os problemas. E não por culpa do já desbotado Paolo Rossi. Nem mesmo por sua nêmesis, o pênalti que Roberto Baggio mandou fazer companhia à Lua. Esses são azares normais, peças pregadas que um dia caducam.

A verdade é que Itália e Brasil são pátrias futebolísticas inconciliáveis, mundos não-comunicantes. Divide-nos uma questão de filosofia aplicada ao futebol, o modo de entender e querer o esporte mais belo do mundo. Quando se fala de bola, vocês brasileiros, que tanto se vangloriam de terem forjado uma sociedade sem discriminações, transformam-se em racistas. Sobem ao tribunal do futebol-bailado e disparam juízos, emitem sentenças, distribuem condenações. Os italianos, que difundiram em todo o planeta o culto ao defensivismo e do resultado-acima-de-tudo, somos acusados por vocês de inferioridade antropológica, de retrocesso cultural, de vulgaridade tática. Na boca dos meus amigos de São Paulo, a palavra “catenaccio” [ferrolho, cadeado], que é um maravilhoso sistema de jogo (talvez a mais revolucionária invenção que já passou pelas pranchetas dos técnicos), torna-se palavrão, injúria, ofensa.

Para vocês, a Itália da bola é o Terceiro Mundo, terra selvagem a ser catequizada pelo verbo e pelo ritmo do futebol-samba. Sendo assim, permitam-me um pouco de história comparada do futebol e o luxo de uma afirmação peremptória: o futebol só se torna um esporte quando, nos anos 40, começa a se interessar pela tática e pela defesa. Antes, era apenas um jogo. Os “azzurri” venceram suas primeiras Copas em 1934 e 1938 com formações voltadas ao ataque, dois solitários defensores a resguardar o goleiro e um bando de pontas e centroavantes lançados em busca do gol. As raízes de nossa tradição são portanto muito… brasileiras. Na edição de 1938, batemos na semifinal uma das maiores seleções de sempre, um esquadrão que reunia os talentos irrepetíveis de Tim, Domingos da Guia, Leônidas. Sepultamo-la debaixo de dois gols, e outros três poderiam ter sido marcados, se consideradas as crônicas da épocas.

Depois vem Karl Rappan, que por infelicidade não era italiano: se fosse, teríamos feito dele um herói da pátria. Rappan era um vienense que obteve eterna fama treinando o Servette, de Genebra, e a seleção suíça. Cansado de obter tantos gols, entediado pelo modelo WM preconizado pelos ingleses e imitado com diligência bovina pelo resto do mundo, inventou o “riegel”, que os franceses traduziram como “verrou”, e nós batizamos “catenaccio”. Na prática, os dois laterais, que antes faziam as funções de alas, ficaram restritos a papéis defensivos, e os dois zagueiros centrais destinados a marcar homem a homem os pontas adversários. Àquele sistema simples, como todas as idéias geniais, nós italianos demos uma contribuição tão pequena quanto essencial. Concebemos o “libero”, que em português vira “livre”, e que significa muitas coisas: livre de obrigações de marcação, livre para avançar, livre para inventar.

O famoso ferrolho, criado por Karl Rappan

O famoso ferrolho, criado por Karl Rappan

 A defesa, antes uma necessidade aborrecida, fez-se arte. Os defensores, que eram brutamontes grosseiros ou meio-campistas falidos, aprenderam a acariciar a bola. Timing, senso de posição, técnica, visão de jogo, elegância. Os predicados que pareciam propriedade exclusiva dos atacantes começaram a definir também o grande “stopper”, o excelente líbero, o ótimo zagueiro-central. A partir daí, sob aquela revolução “made in Italy” floresceram, ao longo de décadas, Nilton Santos, Giacinto Facchetti, Franz Beckenbauer, Ruud Krol, Gaetano Scirea, Oscar, Morten Olsen, Daniel Passarella, Franco Baresi, Paolo Maldini e Carlos Gamarra, amado (e superestimado) por vocês: autênticos foras-de-série, jogadores que não têm nada que invejar, em classe e talento, dos meias e atacantes que escreveram com a tinta do gol sua história no futebol.

Portanto, se puderem julgar sem prejulgar, se se despojarem do complexo de superioridade futebolística (o exato oposto do complexo de vira-latas ao qual se referia Nelson Rodrigues), entenderão que um carrinho de Maldini merece a mesma admiração imposta por um drible de Robinho: ambos são prodígios de timing, controle do corpo e do espaço, de fantasia acoplada ao senso prático. Uma bola tirada em cima da linha por Nesta vale um gol de virada de Ronaldo. Uma antecipação de Gamarra pesa o mesmo que uma firula de Ronaldinho, a bússola que governava Aldair empata com o faro de gol e o oportunismo que tornaram Romário imortal. Se conseguirem se livrar da presunção, se não usarem a técnica e a beleza como parâmetros únicos de juízo, descobrirão que existem zero-a-zeros mais espetaculares que muitos 4 a 4, e que, se um grande ataque é garantia de diversão, uma grande defesa é freqüentemente uma certeza de vitória.

E vocês, apesar das bobagens tipo “joga bonito”, sabem bem que o importante não é divertir e muito menos participar. O importante, desculpem a banalidade, é vencer. E o contra-ataque? Vamos falar dele? É da defesa que se faz o ataque, maravilhosa metamorfose que reúne dois opostos, que mistura poesia e concretude. E tem mais: é a demonstração irrefutável que a frase batida “A melhor defesa é o ataque” leva ao seu exato oposto: “A defesa é o melhor ataque”. Porque a retaguarda é o início de tudo, os zagueiros são o alicerce, as colunas sem as quais o teto do ataque seria um sonho suspenso no ar, uma obra-prima de insensatez. Agora que está por vir um Mundial do qual vocês são os grandes favoritos, quero encerrar com um humilde e italianíssimo conselho. Vocês estão convencidos que o hexa dependerá do engenho do “quarteto mágico”, da capacidade dos seus artistas de marcar um gol a mais que os adversários. Eu digo, correndo o risco de ser tomado como louco, que vocês fariam bem em cultuar Emerson, que é o cimento armado sob sobre o qual se estenderá a seta de Ronaldinho e cia, que é o campeão de aço com a terrível missão de blindar uma defesa medíocre de zagueiros centrais (Cris e Lúcio) e decadente no resto do setor (Cafu, Roberto Carlos e Dida).

Itália bate o Brasil na famosa Tragédia do Sarriá

Itália bate o Brasil na famosa Tragédia do Sarriá

Mas isto o técnico de vocês bem sabe, ainda que não o diga em voz alta. Em entrevistas “italianas” que não ousa repetir no Brasil, o técnico Carlos Alberto Parreira já disse, mais ou menos assim: “Se tivéssemos Alessandro Nesta, não seria preciso jogar. Seríamos declarados campeões por patente superioridade”. E, além disso, vocês brasileiros devem a uma defesa “azzurra” boa parte do romantismo que tornou a seleção de vocês tão idolatrada. Vocês devem um monumento ao trio Scirea-Gentile-Collovati, que em 1982 desarmou o Brasil de Zico, Éder e Sócrates. Sem a tragédia do Sarriá, aquela seleção, que gerou muito do marketing do futebol-bailado, se limitaria a entrar para a história. Exorcizando-a, nós a elevamos a mito.

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4 comentários sobre “A beleza do carrinho

  1. Achei genial o texto. Faltou só uma trilha sonora de JOrge Ben: a música “Arrepia Zagueiro!”

  2. Concordo com o italiano. No Brasil a única coisa valorizada é o drible, é o “Joga 10″, o gol e etc. Ninguém me tira da cabeça que uma divida pode ser bonita. Futebol nunca foi só técnica. É legal ver os bailarinos, focas e congêneres fazendo seus malabarismos mirabolantes.

    Mas tanto quanto um desarme na bola, um carrinho bem feito, uma interceptação de passe. Sou muito mais ter um Gattuso, jogador que joga sempre com raça, força e desarma – quase sempre – com técnica do que um craque de jogo fácil – com excessões – como o Robinho.

    Os italianos não visam a defesa, como muitos pseudo-entendidos de futebol os acusam. Eles visam o gol, astravés de um contra-ataque fatal. É um estilo que engana, ludbria o advesário, o faz crer que estão dominando quando… já era… 1×0.

    Daí comentaristas apocalípticos mais choram a ausência dos gênios de outrora, como Garrincha, do que tentam entender o futebol atual. O jogo competitivo, que busca a vitória, o resultado. É o mesmo que comparar jornais impressos e blogs.

    Os dois tem o seu espaço. Por isso mesmo que não digo que tem paradigma certo ou errado. Ambos são equivalentes. Vide o número praticamente igual de títulos mundiais (5×4) sendo que em 1994, a decisão foi nas penalidades. Onde pode-se afirmar que o estilo de jogo não definiu o campeão, e sim as diversas habilidades – físicas e mentais – necessárias para se cobrar um pênalti.

    Daí, fica para nós, brasileiros, a lição: ao invés de criticar os italianos, não seria melhor aprender com eles e criar uma estilo de jogo sólido na defesa e técnico no ataque?

  3. Muito bom o texto!
    Pra mim, essa história de “futebol-resultado” está num outro campo de discussão. O “futebol-resultado” é aquele que prima somente pela força, seja nas trombadas ou nas chamadas “faltas-táticas”.
    O futebol arte pode ser ofensivo ou defensivo, como bem disse o Penna. Só que a gente aprendeu a exaltar o futebol arte ofensivo, já que nossos grandes craques foram e são atacantes, assim como, na Itália, os maiores astros são jogadores de defesa. Eu, particularmente, admiro um carrinho limpo, uma antecipação bem calculada, etc. Acho que o brasileiro tem aprendido, embora muito aos poucos, a também admirar.
    Não poderia citar outro exemplo que não fosse Thiago Silva. Mesmo com os belos passes, dribles e chutes de Thiago Neves, quem sempre esteve em alta no Flu nos últimos dois anos foi Thiago Silva. Por quê? Porque o TS não é de botinar, ele é zagueiro bem no estilo colocado pelo Penna, que utiliza técnica na zaga, sabe antecipar, sabe desarmar de forma limpa e até tem o drible como recurso defensivo (é só lembrarmos do chapéu que ele deu no Cristiano Ronaldo em amistoso Brasil x Portugal). Com certeza, Thiago Silva vai fazer história no Milan, justamente porque os italianos enxergarão nele o futebol de grandes zagueiros da Itália.

  4. O último parágrafo é um absurdo, uma completa sandice. O ataque do Brasil funcionou perfeitamente naquela partida e alcançou dois gols. Um time que marca dois gols como o Brasil marcou não pode ter sido marcado pela defesa adversária com a precisão que nosso amigo supõe acima.

    E já ganhamos uma copa primando por uma defesa sólida e um ataque apenas eficiente, mas sem brilho: 1994. Ele simplesmente ignorou isso.

    Estamos uma copa a frente dos italianos. Pelos próximos oito anos o cattenacio pode, no máximo, ser tão eficiente que o futebol-arte-samba do Brasil. Eles que lamentem.

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