Sobre a espanholização, modelo alemão e a reestruturação do futebol brasileiro

A gente fala muito no modelo ideal para o futebol brasileiro. Vivemos a espanholização, temos que copiar o que é feito na Alemanha, muitos dizem. Ok, é um caminho plausível, mas acho que antes de tudo é preciso que os dirigentes do futebol brasileiro (clubes, federações e CBF) entendam que é preciso mudar, para que depois busquemos a transformação que melhor nos cabe.

Imagem: Reprodução da internetA tão propalada espanholização vem da divisão desigual dos direitos da TV, que beneficia dois times (Barcelona e Real Madrid no país atual campeão mundial, e Corinthians e Flamengo no Brasil). Aqui, ainda há um grupo ligeiramente maior no segundo escalão, que o de lá (Atlético de Madrid e Valencia, na Espanha, e aqui Palmeiras, Santos, São Paulo e Vasco), o que não quer dizer que as coisas são muito melhores para nós.

Em síntese são dois ganhando um absurdo, meia dúzia ganhando muito, e uma quantidade expressiva de clubes com valores ínfimos. No justo sistema de pontos corridos, esse esquema de divisão é um tiro no pé, já que dificilmente um clube que recebe de R$ 18 a 30 milhões por um ano superará quem recebe R$ 84 milhões. Por isso, até entendo quem defende a volta do mata-mata, que poderia ser uma chance do sistema “quebrar”.

A solução, para muitos, é apostar no que é feito na Alemanha, onde os critérios audiência, popularidade, também existem, mas o que prevalece mesmo é o desempenho dos clubes na temporada anterior. Além disso, parte considerável do montante total é dividida de forma igual. Bem mais justo.

No país europeu, os gigantes seguem imensos. Bayern de Munique, Borussia Dortmund, Schalke 04 seguirão os mais fortes, até porque faturam mais por disputar a Liga dos Campeões da Europa. Outros clubes modestos (fora o trio citado acima, e times com Hamburgo, Stuttgart, Werder Bremen), como Hannover 96, Mainz 05, Freiburg, no entanto, podem brigar pelas vagas continentais.  Será que hoje no Brasil, Portuguesa, Criciúma, Náutico, têm chance de chegar à Libertadores?

O problema germânico é mais embaixo, afinal, o modelo não se estende para as divisões inferiores. Segundo coluna do jornalista Martin Samuel, do Daily Mirror, publicada em maio do ano passado, entre 2008 e 2012, nada menos que 32 equipes do país foram extintas ou se licenciaram, alguns até com passagens pela primeira divisão, como Ulm, Koblenz.

Não sei a relação que os alemães têm com seus “pequenos”, mas sei que para o futebol brasileiro a importância desses clubes é grande, por mais que não sejam muitos os torcedores que os acompanham. Somos um país continental, como todos sabem, assim, não é possível desamparar Remo, Paysandu, Sampaio Corrêa, Ríver, Desportiva Capixaba, Mixto, grandes em seus estados, assim como representantes importantes de cidades, como Londrina, Caxias, Fluminense de Feira.

O mais absurdo é pensar que a CBF paga prêmios ridículos para clubes de primeira, segunda, terceira e quarta divisão. Aí a gente lembra dos valores dos contratos de patrocínio da entidade, e que a mesma não tem despesas com a seleção brasileira, já que tercerizou o “serviço”, não investe na base, muito menos no futebol feminino. Além disso, obriga que clubes das Séries B e C se virem para disputar estas competições.

Agora e se a entidade deixasse as duas primeiras divisões autônomas na busca por receitas, exigindo, no entanto, divisão mais igualitária da TV? E se, resolvesse bancar viagens, arbitragem, e inserir premiações maiores nas terceira e quarta divisões? E se, além disso, determinasse que federações estaduais não podem cobrar absurdas taxas dos clubes?

Não é preciso uma grande reformulação, talvez seja necessário mais bom senso. A fórmula atual é deficitária para grandes, insustentável para pequenos e insuportável para os torcedores.

A estruturação (alguns usariam um sufixo “re” aqui, eu prefiro deixar sem) do futebol brasileiro não deve ficar só no topo, com os grandes. É preciso passar pelas divisões de acesso, dando oportunidades para clubes pequenos, não apenas sobreviverem, mas conseguirem revelar jogadores e terem chances de crescer, se forem bem administrados.

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