Quer futebol-arte? Chama os alemão!

No meio de tantos pensamentos sobre um novo post para escrever, vi que não citei a Alemanha como uma das favoritas para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, em análise que publiquei sobre a seleção italiana. Imperdoável. A intenção das linhas a seguir não é me redimir, não, não. Nem mesmo fazer oba-oba com o futebol do país de Bayern de Munique e Borussia Dortmund, que nesta semana atropelaram Barcelona e Bayern de Munique, pela Liga dos Campeões da Europa, e que tem tudo para fazer uma final caseira na competição continental.

Alemães mostraram nesta semana que estão dispostos a tomar de assalto o futebol mundial

Enquanto a ideia de falar sobre a seleção alemã era amadurecia, comecei a me lembrar mentalmente da relação que tenho com o Nationalelf. Ainda com sete anos, pelos meus bisavós que não conheci, foi para os alemães que torci na Copa de 1990, após aquele maldito gol do Caniggia – na única vez que chorei por causa de futebol. Aquele time estava longe de ser brilhante, apesar de ter o espetacular Lotthar Matthäus, mas ainda assim merecia muito respeito.

Marcado por uma final aborrecida contra a Argentina, vencida por 1 a 0 com gol de pênalti de Andreas Brehme, o esquadrão tricampeão do mundo teve o melhor ataque da primeira fase, com 10 gols em três jogos. Depois, venceu a poderosa Holanda, de Gullit, Rijkaard e Van Basten, a perigosa Tchecoslováquia, a tradicional Inglaterra, até bater os hermanos na decisão. O modo de jogo da equipe treinada por Franz Beckembauer era até ofensivo demais, diferente do que a história sugere, com três zagueiros, sendo um deles fazendo a função de líbero, ou seja, saindo para atuar mais na frente, dois alas marcadores, e um meio de campo técnico, com Matthäus, Hassler e Littbarski, esses dois últimos, verdadeiros “motorezinhos”. Na frente, dois atacantes com faro de gol: Völler e Klinsmann.

Seleção alemã de 1990, um timaço que ficará na história

O tempo passou, as Copas de 1994 e 1998 não deixaram grande saudade, até a montagem da seleção de 2002, que voltou a disputar uma final. Essa lembramos bem, pois foi perdida para a seleção brasileira. Aquela Alemanha estava longe de ser um primor, apesar do ataque ter se mostrado poderoso na primeira fase – se em 90, a goleada sobre os Emirados Árabes inflou os números, dessa vez o sacode foi sobre a Arábia Saudita.

O time que não encarou nenhum campeão mundial até a final – Irlanda, Camarões, Arábia Saudita, Paraguai, Estados Unidos e Coreia do Sul (os três últimos por 1 a 0, nos mata-mata) -, tinha dois grandes destaques: o goleiro Oliver Kahn e o meia Michael Ballack. De “resto”, uma legião de operários. Tanto é que, na final, a Alemanha atuou com três zagueiros, um deles, Carsten Ramelow, que também atuava como volante, dois alas que na verdade eram meias (Thorsten Frings e Marco Bode), um armador, que seria Ballack, que por suspensão não atuou, e dois homens de área Miroslav Klose e Oliver Neuville.

Veio a Copa de 2006, justamente na Alemanha, e a história começou a ser recontada. Garotos como Per Mertesacker, Philipp Lahm, Bastian Schweinsteiger e Lukas Podolski, junto com bons nomes como Frings – dessa vez jogando na sua, de volante -, Michael Ballack e Miroslav Klose. Em reconstrução, o time jogava em um seguro 4-4-2 e comemorou o terceiro lugar como um título mundial. Para muitos, ressurgiu ali o orgulho do futebol alemão. Quatro anos depois, uma inovação surgiria: o futebol-arte germânico. Diferente, é claro, dos que já apresentaram Brasil e Argentina. Afinal de contas, não estamos falando de dribles desconcertantes, talento individual dominante, e sim, de muito vigor físico, velocidade, qualidade de passe e técnica.

Técnico, vibrante e ousado, esse é o futebol alemão da atualidade

Curiosamente, aquela seleção teve uma primeira fase irregular, que começou com uma goleada sobre a Austrália (4 a 0). Logo na rodada seguinte teve o susto de uma derrota para a Sérvia (1 a 0). A vitória sobre Gana, também por 1 a 0, valeu a liderança da chave. Aí vieram dois jogos fantásticos, com as classificações diante de Inglaterra (4 a 1) e Argentina (4 a 0), esta segunda em uma atuação espetacular. Uma derrota para a Espanha e uma vitória sobre o Uruguai selaram novo terceiro lugar.

Aquele Mundial marcou a consolidação do esquema 4-2-3-1, que é adotado por inúmeros times do mundo, até alguns do Brasil. Me lembro de ter lido há pouco tempo sobre o quão sem graça é este esquema. Há sentido na fala, claro, mas tento observar com calma as diferenças da formação quando usada por alemães e quando usadas “pelo resto”. Hoje, editando um texto no trabalho pude vislumbrar o ponto-chave: verticalidade.

É isso. Muitos jogam com homens abertos, esperando que estes, quando próximos a área, entrem na área, apoiem o “1”, ou que acertem bons cruzamentos, enfim, são opções de apoio-ataque. Em outro texto, dessa vez de minha autoria, usei o termo blitzkrieg, para me referir aos golpes que o Bayern de Munique proferia ao Barcelona.

Para quem não sabe, esse é o termo em alemão para guerras-relâmpago, estratégia utilizada pelos alemães, principalmente na II Guerra Mundial. No futebol, achei que a comparação era válida, porque não interessa quanto tempo (vale para os clubes, que jogam baseados naquela semente plantada em 2010) fiquem com a bola e sim o que fazem com ela. Enquanto um homem faz a condução, os jogadores dos lados se movimentam. Se forem acionados, avançam objetivamente, se não, estarão em situação privilegiada para participar da ação, nem que seja para atrair a marcação. Enquanto isso, o centroavante, sempre um homem de faro de gol, está pronto para decidir, seja finalizando, seja dando grande assistência.

Vencer um time assim não é fácil, Barcelona e Real sabem disso. Todos defendem, todos atacam. Claro que ainda faltam títulos, afinal, o último título da seleção foi a Eurocopa 1996, enquanto o último alemão campeão da Champions foi o Bayern de Munique, em 2000/2001.

Ainda assim, os germânicos há muito não pareciam tão capazes de voltar a dominar o futebol mundial, como aconteceu na década de 70. Pode ser que assim, uma velha frase, do craque inglês Gary Lineker volte a fazer sentido: “O futebol é um jogo simples: 22 homens correm atrás de uma bola durante 90 minutos e no final os alemães vencem”.

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Um comentário sobre “Quer futebol-arte? Chama os alemão!

  1. A Alemanha mudou completamente seu estilo de jogo e com isso voltou a ser temida. A dúvida que fica nessa história é: vale a pena jogar bonito ou um futebol de resultado como o da Espanha na Euro compensa mais?

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