Uma tarde de horror promovida por uma polícia irresponsável

A pauta hoje era México x Itália. No fim do dia, a maioria das matérias acabaram não sendo especificamente sobre futebol. Como já sabíamos previamente, aconteceria mais uma manifestação – que de forma bem leve, não tem nome, não tem liderança, não tem reivindicação definida – política. E nesse 16 de junho acabei assistindo lamentáveis cenas. O entorno do Maracanã foi transformado em uma praça de guerra, tudo devido a ação irresponsável da polícia.

Saí do estádio e encontrei um grupo reunido na saída do metrô de São Cristóvão, local marcado para o início do ato. Com eles, um documento informando ao 4º Batalhão de Polícia Militar do Rio, com 24 horas de antecedência, de que subiriam o viaduto Oduvaldo Cozzi, que dá acesso ao Maracanã.

Claro que ia dar merda. Os manifestantes garantiam que havia acordo com a PM para que houvesse escolta até determinado ponto, mas que a corporação recuara. Difícil imaginar as nada democráticas autoridades do estado permitindo algo desse tipo no entorno do Maracanã, em dia de jogo da Copa das Confederações.

Desde o início não houve NENHUMA atitude ofensiva aos agentes de segurança. A única referência era o canto “ei, fardado, você é explorado”. O grupo tentou subir o viaduto, foi impedido sem uso de violência pela PM.  A decisão dos policiais foi desviar a manifestação para a Avenida Radial Oeste, que chegou a ser fechada, levando-a para a Rua General Canabarro, onde há uma pequena praça.

Já era visível que o Batalhão de Choque da Polícia Militar estava pronto, em cada esquina. Ao retornarem para o Oduvaldo Cozzi e tentarem subir novamente, a barbárie começou. Tudo aconteceu a uns 10 metros de distância de onde estava. O comandante de um grupo do Choque começou a ordenar alinhamento, o cão da corporação se irritou com o grito e começou a latir e aí veio o sinal verde: ATIRAR!

Nada, absolutamente nada, tinha sido feito. Não havia negociação em curso. O Choque entrou para arrebentar quem estivesse na sua frente. Como relatou a jornalista Mariana Moura, mesmo um PM foi intoxicado pelo gás lacrimogênio. Instantes antes do conflito eclodir, o fotógrafo Luiz Roberto Lima, das agências Estado e o Globo, se mostrava preocupado. Ele comentou comigo que estava tenso pela sua mulher que também estava no local, trabalhando.

Toda a região da estação de metrô de São Cristóvão foi tomado pelo gás de pimenta. O cheiro ruim e o ardor nos olhos era insuportável. Eis que olho em volta e vejo Luiz no chão, sendo atendido. Passando muito mal, ele foi ajudado por outros repórteres e um agente da Força Nacional de Segurança. Torço para que esteja tudo bem com ele e a esposa.

Saí de lá triste, indignado, passei por vários policiais do Choque na volta ao Maracanã. Queria ter xingado um por um. Só dentro do estádio soube que bombas de efeito moral estavam sendo jogados dentro da Quinta da Boa Vista, contra famílias, contra qualquer um. E o comando da PM ainda fala que não houve excesso. É carimbar otário na nossa testa.

Sentado na tribuna de imprensa do Maracanã, mal via o jogo, não conseguia me concentrar em nada. Até que recebi um toque do meu chefe: “olha ali, fala com o Aldo Rebelo”. O ministro estava acessível na tribuna de honra. Me despenquei. Sorridente ele batia papo com outros jornalistas. O diálogo foi o seguinte:

– Ministro, como o senhor viu as manifestações na porta do Maracanã?

– Não posso comentar sobre isso. Não vi.

– Mas e as anteriores, em Brasília, São Paulo?

– Deixa eu ver o conjunto da obra e aí sim vou dar uma declaração.

Não há mais nada a falar. Aliás, quem deveria estar se explicando não está. Os policiais, como outros pelo país afora, que estão se especializando em usar força excessiva, sequer respondem a processos. Ainda querem tirar força do Ministério Público. Cada dia é mais claro que querem passar o trator por cima de nós. Não dá para aceitar calado.

MAS, SE ERGUES DA JUSTIÇA A CLAVA FORTE,
VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE À LUTA,
NEM TEME, QUEM TE ADORA, A PRÓPRIA MORTE.

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