E se o Brasil ganhasse em 1950?

No fórum de debates “Futebol de Todos os Tempos” (FTT), do Facebook, um desafio foi lançado aos participantes: e se o Brasil tivesse conquistado a Copa do Mundo de 1950?

Quem nunca imaginou o placar do Maracanã assim, com resultado invertido?

Sem dúvida é intrigante pensar nisso. Provavelmente muitos fizeram esse exercício e alguns até o escrito. Postei algumas coisas no tópico e a partir disso, resolvi escrever um texto (Se quiser deixar a sua versão da história, os comentários estão à disposição).

Porre de soberba

Na final da Copa de 1950, mesmo com toda festa antes, a invasão de políticos em São Januário, a capa de um jornal carioca com “Estes são os campeões do mundo” no dia do jogo, o Brasil venceria a decisão contra o Uruguai.

Como sabemos, Friaça abriu o placar para o Brasil e Schiaffino empatou. Aos 34 minutos do segundo tempo, Ghiggia recebeu na direita e encheu o pé, Barbosa fez grande defesa. Depois de muita pressão celeste, aos 44, um contra-ataque mortal definiu o jogo.

Augusto roubou uma bola na defesa, passou para Danilo, que carregou a bola enquanto seus companheiros disparavam para o ataque. O lançamento foi para Ademir, que tabelou com Chico e depois fuzilou Maspoli, definindo o placar e garantindo o primeiro título mundial brasileiro.

O Rio virou um mar de felicidade. O Brasil todo virou. A festa tomou conta das ruas de Norte a Sul. O futebol brasileiro se embebedou de soberba e o mundo voltou os olhos para cá. Os clubes se tornariam alvo de potências estrangeiras.

Crise em 1954

Em 1954, Flávio Costa ficou na dúvida entre manter um time com jogadores “locais” ou “estrangeiros” – o êxodo de craques tornara-se intenso. Com os atletas que atuavam no país, o Brasil sofreu nas Eliminatórias, só se classificando com um suado 1 a 0 sobre o Paraguai no último jogo, debaixo de muitas vaias.

Criticado, o técnico decide chamar quem atuava fora do país mesmo contra a vontade da CBD, retomando a base da Copa anterior. Desentrosada, a seleção cai na primeira fase com empate contra o México e derrota para a Iugoslávia. Na volta ao Brasil, Flávio Costa é demitido.

Campeão do mundo em 1950, Flávio Costa não conseguiu repetir a façanha quatro anos depois

Quatro anos depois, na Suécia, a indefinição continua. A seleção tem quatro técnicos (excetuando-se aqueles que ficaram por um ou dois jogos) e segue sem base. Vicente Feola acaba deixando fora da convocação Pelé, apesar da comoção no país – Garrincha, longe dos holofotes (lá embaixo explico melhor), sequer foi cogitado. Sem alma, e com um time muito envelhecido, a seleção cai nas quartas de final, perdendo para País de Gales.

Revolução na CBD

A nova derrota e a chuva de críticas fazem a CBD se reestruturar. É montada uma comissão técnica permanente – comandada por Aymoré Moreira -, o calendário dos clubes, campeonatos e seleção é organizado racionalmente, e inicia-se um projeto de desenvolvimento do esporte em todas as regiões do país. Pelé vestindo a 10 e Garrincha a 7, se tornam as referências do time. A vaga na Copa veio com facilidade.

Para o Mundial, a estratégia foi esconder o time. Assim, foram quatro anos sem grandes jogos internacionais, tudo para surpreender no Chile. Na estreia, goleada sobre o México por 6 a 0. Contra a forte Tchecoslováquia, vitória por 1 a 0. No encerramento da chave, nova vitória, sobre a Espanha por 4 a 1, que colocou definitivamente o Brasil no grupo dos favoritos.

A campanha seguiu impecável, com vitórias sobre a Inglaterra por 3 a 0 e Chile por 4 a 0. Na decisão, um show brasileiro, aguardado fazia 12 anos. Por último, com dois de Pelé, um de Garrincha, um de Didi e outro de Vavá, veio a goleada aplicada sobre a Tchecoslováquia por 5 a 0, a maior da história das finais de Mundial.

Juntos, Garrincha e Pelé arrebentaram com a Copa de 1962

A partir daí o futebol brasileiro mudou definitivamente de patamar, mostrando que as derrotas de um campeão serviram mais de aprendizado que o Maracanazo proporcionou. Vice-campeão em 1966, após final épica contra a Inglaterra, decidida na prorrogação com gol polêmico, a seleção copou em 1970, 1978, 1982, 1986, 1994, 2002 e 2010.

Ah! E sempre de uniforme todo branco, como adorariam os amigos da FTT.

Em 2014 a seleção brasileira lutará em casa pelo decacampeonato mundial, passando a somar o mesmo número de títulos que juntas têm Alemanha (campeã em 54,74 e 90), Itália (34,38 e 06), França (58 e 98), Uruguai (30) e Inglaterra (66).

Os craques

Pensar nesse futuro nos faz pensar qual seria o destino de cada um de nossos craques. Me fixarei em dois, os dois maiores, os jogadores mais importantes de todos os tempos, de acordo com eleição da Fifa em 2001: Pelé e Garrincha.

Preterido em 1958 com 17 anos, Pelé caiu em depressão profunda. O jovem havia garantido ao pai que ganharia uma Copa do Mundo, após a decepcionante campanha de quatro anos antes. Tido como promessa, demorou um ano para voltar a brilhar no próprio Santos, o que só fez após a chegada de um companheiro especial.

A partir daí firmou seu nome como fora de série, ganhando títulos pela seleção e pelo seu clube. Foi tetra da Libertadores e Mundial entre 1962 e 1965. Foi o craque das Copas de 1966 e 1970, e ainda disputou a seguinte, em 1974. Terminou a carreira nos Estados Unidos, e anos depois foi eleito o Atleta do Século.

Garrincha explode em Petrópolis

Já Garrincha teve destino muito diferente. Em 1953, levado para um teste no Botafogo, não se destacou – Nílton Santos, vendido um ano antes para a Juventus, nunca pôde dizer “quero esse cara do meu lado”. Assim, o ponta voltou para Pau Grande e logo depois voltou a tentar a sorte na vizinha Petrópolis, onde defendera o Cruzeiro do Sul em 1951 e o Serrano em 1952.

Jogando pelo Leão da Serra fez história no extinto Campeonato Fluminense. Campeão petropolitano de maneira inapelável em 1953, com Mané jogando o fino, o clube apostou em tirar talentos dos rivais municipais, montar uma verdadeira seleção e disputar o Campeonato Fluminense a partir do ano seguinte.  O sucesso foi absoluto, rendendo seis títulos em sequência.

Com o título de 1958, o Serrano ganhou vaga na primeira edição da Taça Brasil. Na primeira fase foram duas vitórias sobre o Rio Branco capixaba, com direito a goleada por 7 a 0, no Atílio Marotti. Na sequência, grande desafio contra o Atlético Mineiro.

Em Petrópolis, vitória magra por 1 a 0. E em Belo Horizonte, Garrincha ganhava status de craque. O Galo devolvia o placar da ida, até que o camisa 7 enfileirou quatro rivais e fuzilou Veludo, que nada pode fazer para evitar a classificação da equipe de azul.

Depois veio o Grêmio. Dessa vez, o Serrano teve dificuldades em casa e não saiu do 0 a 0. Na volta, o Mané foi decisivo de novo, com cruzamento para o gol que garantiu a vitória por 1 a 0 e a vaga para enfrentar o Santos.

Com um forte elenco que inexplicavelmente não se encaixava, o time paulista não conseguiu parar Garrincha. Na serra fluminense, vitória do Leão por 3 a 1, com show do camisa 7. Na volta, nova vitória do Serrano, desta vez por 2 a 0.

No mesmo dia, com uma mala de dinheiro nunca vista na história do futebol petropolitano, o presidente santista Athiê Jorge Coury acerta a contratação do craque, formando o melhor time da história do futebol mundial. Depois, mesmo com grandes atuações de Garrincha, o Serrano para no Bahia, após empate em 2 a 2 no Maracanã, e derrota por 5 a 3 na Fonte Nova.

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Um comentário sobre “E se o Brasil ganhasse em 1950?

  1. Muito boa essa viagem Bruno, pena que o Serrano tenha perdido para o Bahêa. E gostaria de saber como a seleção ganhou a Copa de 1978. Deu de 7×0 no Peru?? Abraço!

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