Catar: A Copa do Mundo que não será?

O mês é novembro e o ano é 2021. O anúncio de uma reunião entre federações filiadas à Uefa deixou a Fifa de cabelo em pé. A pauta era uma retirada em massa da Copa do Mundo de 2022, devido à imagem negativa do Catar diante da comprovação das irregularidades nas eleições para sediar a competição, e dos diversos processos trabalhistas movidos por organizações internacionais.

Por trás do argumento “oficial”, as entidades estariam revoltadas com redução de premiação e dos seguros pagos pela participação de jogadores, além da instauração de uma taxa para as 32 seleções classificadas. Com a repercussão negativa de dois Mundiais realizados em meio a uma série de protestos populares, a Fifa perdeu diversos patrocinadores, e sentia na pele a dificuldade de domar o monstro que criou.

No fim da reunião, o anúncio caiu como uma bomba: Alemanha, Inglaterra, França, Itália, Suíça, Dinamarca, Escócia, Bélgica, Holanda e Polônia, abdicavam das vagas no Mundial. Além disso, a Uefa recomendava que todas as outras filiadas não aceitassem convite para entrar no torneio.

Dias antes, outras três classificadas se anteciparam, mas para garantir a presença na Copa: Rússia, sede de quatro anos antes, além de Espanha e Portugal, que receberam a promessa de receber o torneio em 2026 e 2034, respectivamente, no chamado “modelo sustentável” elaborado pela Fifa, com custos baixos para os países que topassem a empreitada.

Rapidamente, começaram as conversas para a ampliação do boicote. A “dona” do futebol mundial também não perdeu tempo. O primeiro a ser procurado para conversar foi o Brasil – com boatos de duras ameaças sobre a revelação de esquemas ilícitos que implodiriam o país, semelhantes às feitas aos russos. Depois do papo, os maiores campeões mundiais estavam garantidos no Mundial.

O Catar também se mexeu e usou a influência do petróleo para convencer os países da Opep, que é a organização dos países exportadores do recurso mineral. O grupo partiu em seguida para ofensiva contra os Estados Unidos, ameaçando inclusive cortar produção do “ouro negro”. Antes combativos, os ‘yankees’ confirmaram seu lugar no torneio e ainda convenceram mexicanos e jamaicanos, outros classificados na Concacaf. Só o Canadá desistiu, abrindo vaga para Trinidad e Tobago.

Na sede da Conmebol, uma reunião de emergência foi realizada. A entidade e o Brasil tentavam impedir as desistências. A Argentina confirmou presença, mas Colômbia, Chile e Uruguai abandonaram o navio. Os celestes, inclusive, abriram mão do direito de organizar a Copa de 2030, que marcará o centenário da competição, deixando o pepino só com os ‘hermanos’. “Não queremos fazer parte dessa sujeira”, afirmou dirigente da federação uruguaia.

Os venezuelanos, aliados do Catar, confirmaram presença. Diante das desistências de paraguaios e peruanos, quem ficou com a vaga foi a Bolívia, penúltima colocada nas Eliminatórias. Além disso, a Oceania recebeu a chance de mandar representante. A Nova Zelândia recusou, mas as Ilhas Salomão toparam, segundo alguns, em troca de bela quantia em dinheiro.

Na Ásia, as quatro classificadas (Japão, Austrália, China e Coreia do Sul) desistiram. Arábia Saudita, Uzbequistão, Emirados Árabes e Kuwait, que havia sido eliminado ainda na primeira fase, herdaram as vagas. Na África, só a Nigéria confirmou presença, enquanto Gana, Costa do Marfim, Tunísia e Egito ficaram fora. Coube a Angola, Senegal, Togo e Líbia também representarem o continente.

A situação mais esdrúxula, no entanto, aconteceu na Europa. Portugal e Espanha confirmaram presença, mas pouco ajudaram a convencer outros países. A Rússia foi quem partiu atrás de conseguir atrair seleções, principalmente, do Leste Europeu. Com a dificuldade em confirmar representantes do continente, a Fifa chegou a pensar em reduzir de 13 para cinco as vagas da Uefa, diminuindo o número de participantes da Copa para 24.

A ideia foi rechaçada por analistas da entidade apontarem que esta seria uma vitória aos opositores. Assim, de reunião em reunião, seleções foram confirmando lugar. Ninguém de encher os olhos como Bulgária, Irlanda do Norte, Letônia. As dificuldades foram fazendo a Fifa chegar nos últimos lugares em chaves das Eliminatórias, caso de Andorra e Estônia, que se juntaram a Armênia, Chipre, Belarus, Malta e Moldávia

A Copa

Com as 32 seleções definidas, pouca repercussão na imprensa mundial e afastamento de patrocinadores, a Fifa resolveu reduzir as estruturas do seu “circo”, como por exemplo, a do sorteio dos grupos, que teve custo estimado de R$ 5 milhões, quase um terço do gasto na África do Sul, e menos de um quinto do gasto no Brasil.

Com poucas seleções de bom nível, ao invés de esperarem pelo “grupo da morte”, todos queriam ver quem entre Brasil, Argentina e Espanha pegaria a chave mais fácil. No fim, igualdade, com a seleção verde e amarela indo para o grupo D, com Arábia Saudita, Belarus e Moldávia, a ‘albiceleste’ caindo no G, ao lado de Angola, Estônia e Jamaica, e a ‘roja’ indo para o E, com Ilhas Salomão, Irlanda do Norte e Líbia.

Além disso, o grupo A foi formado por Catar, Bulgária, Malta e Venezuela, o B por México, Armênia, Kuwait e Nigéria, o C por Estados Unidos, Chipre, Emirados Árabes e Togo, o F por Portugal, Andorra, Senegal e Uzbequistão, e o H por Rússia, Bolívia, Letônia e Trinidad e Tobago.

Na primeira fase houve poucas zebras como a queda dos mexicanos, que ficaram atrás de búlgaros e venezuelanos, e a liderança dos senegaleses, que derrotaram nossos patrícios por 2 a 0.  Com isso, as oitavas de final tiveram um antecipado duelo ibérico, que foi vencido pela ex-Fúria, por 1 a 0.

Ainda na segunda fase, o Brasil sofreu, mas passou pelos Emirados Árabes. Em duelo sul-americano, a Argentina superou a Bolívia. Nos outros duelos, a Armênia surpreendeu a Bulgária, os Estados Unidos venceram Belarus, a Nigéria bateu a Venezuela, Senegal passou pela Irlanda do Norte e a Rússia despachou a Jamaica.

Fracasso

Os índices de audiência eram os piores da história das Copas e a taxa de ocupação dos estádios também era pífia, tanto é que crianças e adolescentes passaram a receber ingressos para os jogos. Com o primeiro encontro entre campeões mundiais acontecendo apenas nas quartas de final, entre Espanha e Argentina, a competição já era considerada um fracasso comercial.

No melhor jogo do Mundial, vitória dos ‘albicelestes’, por 3 a 1. A surpresa ficou por conta da eliminação do Brasil, derrotado na prorrogação pelos nigerianos por 1 a 0. Além disso, os Estados Unidos superaram a Armênia, e a Rússia eliminou o Senegal nos pênaltis.

Na fase seguinte, a falta de seleções de peso jogou outra vez contra a organização. A quantidade de ingressos nas mãos de cambistas assustou, e imagens do estádio quase vazio para o confronto entre Nigéria e Rússia rodaram o mundo. No fim, vitória dos europeus por 2 a 0. No outro jogo, a Argentina despachou os Estados Unidos com outro 3 a 1.

Para evitar estádio às moscas, a decisão do 3º lugar passou a ser a preliminar da final. No jogo, os americanos bateram os nigerianos por 5 a 2. Na disputa pelo título, vitória argentina sobre os russos por 2 a 1, com direito a sheik erguendo a taça antes do capitão da seleção campeã.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s