Um dia de travessura – É assim que nascem as paixões

* Por Luiz Bianco

São 8 da manhã de um domingo emburrado, de vento frio e querendo chuva em São Paulo. Recebo uma mensagem logo cedo no telefone: “cara, não poderei ir, vai ficar para a próxima”. Ao calçar o sapatos e colocar uma blusa pra topar com o tempo nada amistoso da capital, recebo uma segunda negativa: “olha, não vai rolar, tô com algumas coisas pra fazer aqui. Mas vai lá”.

Éramos cinco e ficamos reduzidos a três. Eu, um amigo e minha brava namorada que topou enfrentar um dia diferente. Há um mês atrás eu já havia decidido. Eu tinha um compromisso de honra na Rua Javari para acompanhar o bravo Juventus da Mooca, o Moleque Travesso.

Rua Javari: um dos templos históricos do futebol brasileiro

Rua Javari: um dos templos históricos do futebol brasileiro

Pegamos ainda sonolentos o metrô rumo à estação Bresser-Mooca. Criei na minha cabeça uma imagem de que o metrô iria cheio de uma animada torcida. Esperei ansioso pelo encontro que não aconteceu. Mas nada seria capaz de me tirar o entusiasmo. Ao chegar a Mooca, um alento. As primeiras camisas do moleque começaram a surgir. Seguimos os passos de dois torcedores que conversavam calmamente no trajeto de 15 minutos a pé até o estádio. Ao chegar na famosa Rua Javari, eis que começo a perceber o que é o Juventus.

Famílias inteiras trajando a linda camisa do clube conversavam na rua já tomada pelos torcedores. Um churrasco, as nove e meia da manhã, já reunia a “Famiglia”, a animada torcida juventina que fica atrás de um dos gols com seu bumbo e seus cânticos. Uma pequena fila se formou para comprar o ingresso da partida válida pela Série A3, a terceira divisão do Paulistão. O adversário do dia era o Sertãozinho.

Entrando em um templo do futebol

Ao entrar no Estádio Conde Rodolfo Crespi, uma atmosfera diferente paira no ar. A pequena loja do clube está abarrotada. Fui inclinado a voltar para casa fardado com a camisa do moleque e rapidamente me apaixonei pela camisa de 1930. Belíssima. Não tive dúvidas que acompanharia o jogo com ela. Me antecipei para não perder os momentos iniciais do jogo e em poucos minutos já estava vestindo as cores do moleque.

Camisa retrô do Juventus, que pode ser adquirida na loja do clube

Camisa retrô do Juventus, que pode ser adquirida na loja do clube

Um busto de Pelé, na entrada do estádio, anuncia um fato importante sobre a Rua Javari. Com a certeza de uma testemunha ocular e com a sabedoria de um senhor vivido, o Conde Rodolfo Crespi conta para todos que o visitam que foi ali que o rei marcou o seu gol mais bonito. É de arrepiar.

Pequeno para os padrões modernos, um gigante que abocanha os adversários. O charme das madeiras coloridas, do símbolo cravado na entrada e da arquibancada próxima ao campo esconde sua face terrível para os adversários: é ali que o moleque apronta as suas travessuras. E com um detalhe: sempre aos olhos de sua torcida que grita ferozmente no alambrado. Não há vivo no mundo que não escute um berro vindo daquelas arquibancadas.

O jogo

Logo nos primeiros minutos, o arqueiro do Sertãozinho tem um tiro de meta a seu favor. Durante os segundos em que ele se prepara para bater na redonda, a torcida juventina grita em uma única voz: “oooooooooooooooooooooooooooooooooooo”. Quando o pé atinge a bola, crianças, idosos, homens, mulheres gritam: “fiiiiiiiiiiiiiilho da puuuuuuuuuutaaaaaaaa”.

Na primeira vez eu ri. Na segunda, eu já gritava junto.

Com pouco mais de 5 minutos, bola na área do time grená. O goleiro rebate para o centro da área. Sem pena do Moleque, o atacante do Sertãozinho bota a redonda no fundo do capim. Um silêncio mortal atinge a Rua Javari. Alguém, lá no fundo grita: “filho da puuuullllta!!”

O Juventus não sente o golpe e começa um verdadeiro massacre. As chances surgem uma atrás da outra. A bola cruza a área. O ataque desperdiça uma chance em cima da linha. O chute passa perto. O goleiro adversário trabalha, se joga tentando gastar o tempo. Até que em uma rebatida da defesa, a bola desvia no atacante do time da Mooca e entra. Uma explosão toma conta do estádio. Mas eis que o bandeira levanta seu instrumento e invalida o gol. Revolta. Filho da puta agora se transformava em um elogio. Eu, já em cólera, não me conformava. Estaria o Moleque sendo garfado em seus domínios? Que travessura seria essa que os deuses do futebol estavam pregando?

O gosto amargo sai com Canoli

Tradição. O Juventus representa tradição. No intervalo, me dirigi a parte inferior da arquibancada onde uma fila imensa se formava. Todos em busca do Canoli, o doce italiano que é servido no estádio. Nunca vi nada igual. Ninguém reclamando, todos ali tranquilos. Se algum desinformado por ali estivesse poderia crer que se tratava de uma festa de aniversário meus amigos.

A tradição do Canoli de creme e de chocolate pareceu dar forças não só a torcida como aos 11 combatentes. Imagino que os jogadores compartilhem da guloseima. Entre uma instrução e outra do professor, uma mordida no Canoli.

A travessura

Não consegui ficar na fila até pegar o doce. Minha namorada, pacientemente se prontificou a pegar o meu. Queria ver o reinício da partida. Para o azar dela e para minha sorte, não me arrependi.

Nas arquibancadas da Rua Javari, orgulho é sentimento comum entre torcedores

Nas arquibancadas da Rua Javari, orgulho é sentimento comum entre torcedores

Pouco mais de 5 minutos de bola rolando, o Juventus avança pela esquerda. O ponta centra uma bola rasante na área. A redonda rebate em um, em dois e sobra na risca da pequena área limpa para o empate. Agora sim, o alívio. Eu teria um troço se visse o Moleque ser batido em seus domínios.

Minha namorada chega com os Canolis. Realmente uma delícia, perfeito para a ocasião. Termino o meu e vejo o Juventus crescendo na partida. O estádio parece empurrar o time, sufocando o Sertãozinho. A defesa se torna imbatível. Em uma roubada de bola, a zaga faz uma ligação direta para o ataque. O ponta Sorriso, que vinha sendo alvo de protestos da torcida e que havia brigado com a bola o jogo inteiro tem o seu momento divino. Diante de três marcadores ele apronta um salseiro em velocidade. Drible pra cá e pra lá, até se ver solto na ponta da área. Chute cruzado certeiro no canto e bola na rede. Um gol maiúsculo. Um golaço. Êxtase total. Fui para o alambrado comemorar com o banco de reservas que comemorava junto com a torcida. O busto de Pelé deveria estar sorrindo ao ver a pintura.

A arquibancada comanda o jogo

Segue a partida, agora com o Sertãozinho querendo buscar o prejuízo. Um senhor de cabeça branca, com uma garrafa de água na mão e a ponto de ter um infarto se aproxima de nós na arquibancada. Ele grita para o campo e estranhamente os jogadores respondem. Ele orienta a equipe e a equipe faz o que ele manda. Ele vai ao alambrado e grita com o ponta que é “pra segurar a bola no ataque”. O ponta faz isso.

Logo atrás de nós, outros três torcedores falam sobre a cena inusitada e tudo fica claro. O homem, de cabeça branca e quase tendo um troço é Ferreira, técnico do moleque.  Ele havia sido expulso de campo pelo soprador e comandava o time da arquibancada, ao lado dos torcedores. Uma cena do futebol de verdade, que faz tudo ter sentido.

O golpe final

Já sem poder alterar a equipe, o Moleque resiste, gostando do resultado. A defesa segue rebatendo bolas. Aos 45, um chutão encontra ataque e defesa no mano a mano. O atacante juventino, que havia largado dois metros atrás, chega um metro na frente do defensor para encontrar a bola. O goleiro, indefeso como criança nova e sem acreditar que seu companheiro perderia a disputa, se posicionara na entrada da grande área. Com um toque, o camisa 18 grená bate da intermediária por cima do arqueiro. Antes da bola entrar, a torcida já comemorava mais um golaço na manhã de domingo, o golpe final da travessura do moleque.

Ferreira, o técnico, comemorava junto com a torcida recebendo abraços e apertos de mão empolgantes. O apito final veio com o alívio dos três pontos que recolocam o Juventus na luta pelo acesso. Estava escrito ali mais um capítulo da história de um futebol cada vez mais difícil de encontrar. E eu, que vim lá do interior de Minas, já me via como mais um torcedor do Juventus da Mooca. E como é bonito falar “Juventus da Mooca” meus amigos. Tem uma coisa de imponente e arrepiante. Minha namorada, me vendo acabado e rouco depois do jogo, me perguntou:

-“De onde vem essa coisa toda pelo Juventus assim, tão rápido?”.

Respondi:

-“Não sei, mas acho que é assim que nascem as paixões”.

* Luiz Bianco é publicitário, formado na Universidade Federal de Juiz de Fora, e mora em São Paulo faz um ano.

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9 comentários sobre “Um dia de travessura – É assim que nascem as paixões

  1. Daqui da cidade fluminense de São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, tenho o Juventus como companheiro do meu Vasco da Gama em meu coração. Força Moleque Travesso na caminhada para conquistar a primeira divisão. Sonho um dia estar aí na arquibancada do estádio da Rua Javari.

  2. Estou indo amanhã a noite para São Paulo e vou pegar a 17ª RODADA na Rua Javari contra o Internacional dia 02.04, certamente depois dessa oportunidade, farei o possível para sempre voltar e quando estiver distante estarei ouvindo os jogos e acompanhando o time e sua torcida de Pernambuco. Abraço forte.

  3. Obrigado Esequias e Lucas. O Juventus é realmente sensacional. Estarei lá na Rua Javari no dia 13 para acompanhar a partida contra o Cotia. Grande abraço e obrigado pela leitura!

  4. É essa paixão que quero sentir ao ir na Javari, esse clima e essa atmosfera que só consigo imaginar e que não chegou bem perto em 2008 quando o moloque travesso esteve jogando a Copa do Brasil contra o Náutico, foi meu único contato pessoal com o Juventus é algo que talvez possa ser ensaiado ao ouvir o WebRádio Moocamas semana que vem estarei ai com os demais Juventinos.

    Sim, sou de Recife.

  5. Muito legal, Luiz. Eu moro do outro lado da cidade, sou palmeirense, mas sempre que posso vou até a Javari assistir um jogo do nosso querido Juventus. Me identifiquei profundamente com tudo o que você relatou e lembrei da primeira vez em que estive lá, há cerca de 3 anos. Apareça mais vezes. Abraços.

  6. Demais! Deu até vontade de estar com vocês – e comer o doce, claro!

  7. Obrigado Danilo e Ale!

  8. Luiz, não é à toa que o Juventus da Mooca é conhecido como “Il Ruba Cuore”. Que em bom mooquês significa “O Ladrão de Corações, meu!”

  9. Pqp….otimo…

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